A crise financeira da Santa Casa de Campo Grande ganhou um novo capítulo nesta segunda-feira (15), após o juiz Eduardo Lacerda Trevisan, da 2ª Vara de Direitos Difusos, Coletivos e Individuais Homogêneos, declarar estar "espantado" com a resistência da instituição em apresentar documentos relacionados às suas contas e movimentações financeiras.
A manifestação ocorreu durante análise de um processo de produção antecipada de provas movido pelo Instituto Artigo Quinto (IA5), que busca acesso a contratos, relatórios financeiros e registros contábeis da Associação Beneficente Santa Casa de Campo Grande. Segundo o magistrado, os recursos apresentados pela entidade não alteram a decisão anterior que determinou a apresentação da documentação.
Em trecho do despacho, o juiz registrou seu descontentamento com a postura adotada pela instituição. A declaração reforça o entendimento de que, apesar dos recursos protocolados pela defesa da Santa Casa, não existe até o momento decisão superior suspendendo os efeitos da liminar anteriormente concedida.
A discussão ocorre em meio a uma grave crise enfrentada pelo maior hospital de Mato Grosso do Sul. Nos últimos anos, a Santa Casa tem alegado déficits financeiros recorrentes, dificuldades para manter serviços, atrasos salariais, falta de insumos e necessidade constante de aporte financeiro por parte do poder público.
Paralelamente, a instituição mantém disputas judiciais relacionadas ao financiamento de suas atividades. Uma das ações busca a atualização de convênios firmados com a Prefeitura de Campo Grande e o Governo do Estado. A Santa Casa argumenta que os valores atualmente repassados não acompanham a inflação nem o aumento dos custos hospitalares registrados nos últimos anos.
A situação do hospital já havia motivado outras decisões judiciais. Em 2025, o mesmo magistrado determinou que Estado e Município apresentassem um plano capaz de reduzir o déficit financeiro da instituição, garantir abastecimento de medicamentos, regularizar estoques de insumos e melhorar as condições de atendimento aos pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS).
Embora a decisão atual não aponte qualquer irregularidade nas contas da Santa Casa, o juiz destacou a relevância da transparência por se tratar de uma entidade privada que presta serviço essencial à saúde pública e recebe recursos provenientes de contratos e convênios com o poder público.
A direção da Santa Casa tem afirmado, em manifestações públicas recentes, que enfrenta dificuldades financeiras históricas e que busca alternativas para manter o funcionamento dos serviços prestados à população. O caso continua em tramitação e deverá contar com manifestações do Ministério Público de Mato Grosso do Sul e dos entes públicos envolvidos.