
O Banco Master, controlado pelo empresário Daniel Vorcaro, possuía apenas R$ 4 milhões em caixa antes de ter sua liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central, em novembro de 2025. A informação foi revelada pelo diretor de Fiscalização do BC, Ailton de Aquino, em depoimento à Polícia Federal, cujo sigilo foi derrubado nesta quinta-feira (29) por decisão do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF).

Segundo Aquino, apesar de o Banco Master ser classificado como uma instituição de médio porte (segmento S3), o volume de R$ 80 bilhões em ativos totais exigia acompanhamento rigoroso da autoridade monetária. Em condições normais, bancos desse porte deveriam manter entre R$ 3 bilhões e R$ 4 bilhões em liquidez imediata, cenário muito distante da realidade encontrada às vésperas da intervenção. O diretor relatou que a supervisão intensificada ocorreu diante de uma grave crise de liquidez que comprometia o fechamento diário de caixa.
Outro ponto considerado crítico foi a situação do Will Bank, fintech ligada ao Banco Master, que também acabou sendo liquidada. De acordo com o depoimento, havia dificuldades operacionais severas, especialmente no processamento de pagamentos e movimentações financeiras. Diante do risco sistêmico, o Banco Central decidiu aplicar o Regime de Administração Especial Temporária (Raet) no Will Bank, mecanismo que prevê a substituição da diretoria por um conselho gestor, mantendo as operações ativas para evitar impactos ao Sistema Financeiro Nacional (SFN).
Aquino destacou ainda que havia ativos relevantes do Will Bank registrados no balanço do BRB, o que poderia gerar prejuízos ainda maiores caso o Raet não fosse decretado. Segundo o BC, o universo afetado envolvia cerca de 11 milhões de cartões de crédito, concentrados majoritariamente entre consumidores das classes C e D, o que ampliava o risco social e financeiro da interrupção abrupta das operações.
Durante o depoimento, o diretor do Banco Central fez uma comparação direta entre o caso do Banco Master e o colapso do Banco Cruzeiro do Sul, ocorrido em 2012. Assim como naquele episódio, o Master teria emitido créditos inexistentes, utilizando técnicas para burlar os sistemas de controle, como a Central de Risco de Crédito. O Cruzeiro do Sul deixou um rombo de R$ 1,3 bilhão e patrimônio líquido negativo de R$ 150 milhões, resultado de práticas semelhantes às agora atribuídas ao Banco Master.
As declarações reforçam a linha de investigação da Polícia Federal e do Banco Central, que apuram fraudes em carteiras de crédito superiores a R$ 11 bilhões, além de possíveis responsabilidades administrativas e criminais dos gestores da instituição. Com a quebra do sigilo, o caso ganha novos contornos políticos, financeiros e policiais, ampliando o escrutínio sobre a atuação do sistema de fiscalização bancária e seus reflexos no mercado financeiro nacional.
